sábado, 21 de março de 2020

O estado de emergência e a emergência do nosso estado



Há muito tempo que não coloco em palavras os pensamentos que me atravessam. Tenho privilegiado a escuta e a leitura, as opiniões da sociedade civil e da sociedade científica que explodiram nas duas últimas semanas como um rio que se viu libertado do seu estrangulamento. Escutar é tão ou mais premente do que ser escutado, particularmente neste gigantesco tempo de incerteza. Quebro a minha posição por sentir urgente a necessidade de discorrer sobre o que se avizinha.

Em primeiro lugar, jamais discordarei de que a salvaguarda da vida é o dever pilar de qualquer Estado, sem o qual nenhum poderá continuar a existir. Mas salvaguardar a vida é muito mais do que a vida física, essa que tem sido a única solicitação da sociedade. Sei que vivemos num tempo de excepção. Mas onde termina a excepção e começa o hábito? Onde fica o espaço para a moderação e a prudência? Saberemos realmente o que significa um estado em emergência; abdicar voluntariamente dos nossos direitos fundamentais? Se a nossa primeira resposta ao medo colectivo é abdicar de tudo o que temos, o que diz sobre nós?

A desconfiança que afronta o nosso povo começa a criar fracturas que não serão fáceis de debelar. O mesmo povo que há semanas atrás denunciava o caso de racismo no nosso campeonato de futebol agora compra no supermercado muito mais do que precisa, nada deixando, por exemplo, para os profissionais de saúde que se vêem perante prateleiras vazias no fim dos seus turnos (não basta bater palmas às dez da noite); impacienta-se nas filas das farmácias, aceitando agiotagem por medicamentos de que não precisará; julga e condena aqueles que ainda procuram trabalhar e produzir pelo seu sentido de necessidade e compromisso. E, num caso que me é próximo, manda fechar o aeroporto da Madeira e expulsar todos os turistas; impede-os sequer de entrar nos autocarros, os mesmos turistas que foram e têm sido o ganha-pão de toda a ilha, como bichos enfermos, leprosos que não querem ter perto, mas fechados a sete chaves num sanatório.   

Não podemos, mesmo num estado de emergência, deixarmos de ser quem somos. Temos o dever de nos adaptarmos às condições excepcionais, mas também o dever de mantermos a nossa essência. Ou será que o medo é mesmo mais forte do que nós? Ninguém duvide de que os próximos meses colocarão à prova a nossa resiliência. Por um lado, o isolamento que durará várias semanas (desconfio sobremaneira que largos meses) originará debilidades físicas e mentais. Depois, a impaciência pelo adiamento do regresso à normalidade encaminhará à desobediência e à desordem civil. E o aumento do número de casos de infectados e óbitos colocar-nos-á ainda mais na disposição de cedermos os nossos direitos; mas cada vez com mais sedição pela própria sociedade.

O nosso modo de vida acabou. Esta tem que ser a primeira assimilação. As fronteiras que hoje se erguem por todo o mundo, os direitos que se suprimem, as economias que se encolhem e comprimem; nenhum regressará como era. Se não estivermos preparados para a mudança que já está a concretizar-se, perderemos muito mais do que as vidas dos nossos concidadãos. Perderemos a nossa essência. Este é o tempo que aqueles que, como eu, apoiam um mundo livre, globalizado, tolerante e democrático sempre temeram. O tempo da desconfiança, do medo e da submissão. Um tempo que se fortalecerá nesta crise de saúde pública e que ganhará fôlego na crise que vem a seguir.

Há outro perigo à espreita: um tsunami que já levou toda a água das nossas praias e começa a lançar a sombra da sua enorme onda sobre nós. O tsunami económico. Convenhamos: esta será a verdadeira crise que colocará em causa a nossa vida, a nossa forma de viver; que exige uma panóplia de salvaguardas que nem o nosso Estado, nem outros Estados, estão preparados e habilitados a dar. Irá provocar óbitos (provavelmente mais do que o COVID-19, mas sem a contagem oficial), irá destruir famílias, irá trazer fome, miséria e causar um sem-número de sem-abrigos. Vai fortalecer o nacionalismo, conforme cada nação procurará reerguer-se primeiro a si própria. Esta tinha que ser a hora da Europa, da União Europeia, do sonho europeu tão frequentemente falado e fugazmente vislumbrado. Mas a Europa, a ideia de um povo europeu uno, desertou-se em poucos dias. E mesmo uma resposta coordenada da União Europeia e das instituições internacionais já não será suficiente.

Numa semana apenas, a nossa economia puxou travão a fundo. O terceiro sector, particularmente nos serviços e na restauração, está por um fio. Já há despedimentos, lay-offs e abusos dos direitos laborais. Há sítios que fecharam e não voltarão a abrir portas, por mais que os avisos prometam um regresso breve. Não vão. Não haverá dinheiro. Portugal não tem dinheiro para sustentar uma economia suspensa durante vários meses. Muito daquilo que hoje fecha, fecha permanentemente. Com o terceiro sector debelado, a pressão recairá sobre o segundo sector, a reduzir a sua produtividade, e com isso a mais despedimentos; e depois sobre o primeiro, o mais essencial – mesmo com supermercados lotados de açambarcadores, já não há restaurantes para comprar a produção que dava o lucro aos pequenos produtores.

Termino com o receio de que não saibamos ver o panorama completo. Que não sejamos capazes de avaliar as decisões do Estado num contexto temporal alargado. Que abdiquemos dos nossos direitos fundamentais por causa do medo, ainda que fundamentado. Não há medo pior do que o medo da morte colectiva. O país deve parar no que for possível parar; devemos ficar em casa sempre que nada de outra premência se coloque; mas não podemos parar tudo, sob risco de não nos levantarmos tão cedo. Por muito que faça, coisas boas e coisas más, um Estado nunca sairá de cara limpa de uma crise destas. E não havendo compreensão por parte daqueles que exigem medidas duras e rápidas sem assimilarem a durabilidade desta batalha, abre-se o caminho para o populismo e para o extremismo; na fúria daqueles que hoje pedem o encerramento total e amanhã exigirão o seu rendimento, daqueles que consideram apenas a sua própria sobrevivência. O populismo de oportunismo atroz floresce naturalmente nas piores crises – atentemos ao fascismo na Europa após a crise dos anos 30, e tenhamos muito cuidado.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O dia do dragão

O Rei está morto. Longa vida ao Rei. Assim se fizeram muitas passagens de poder na Idade Média. Tantos séculos depois, ouço novamente no ar esta evocação. E parece-me que traz toda a instabilidade que marcou aquela época. Traz reinados; reis, imperadores e fidalguias aparentes. Traz contendas por linhas e fronteiras e ameaças e sanções que anseiam passar da palavra à arma. Lembra-me de Napoleão no seu cavalo branco; das inúmeras palavras de ordem que gritou do selim dourado. Ardeu o mundo num rebuliço sem fim e ficou diferente para sempre. O novo rei já não gritará de um cavalo branco, onde poderia apanhar frio. Terá uma casa branca, de cal bem nutrida, para gritar palavras de desordem. Mais parecerão napalm, como o fogo de um dragão que passou da mitologia à realidade. Na Idade Média havia cavaleiros valentes e honrados que se dedicavam exclusivamente à caça do dragão e ao resgate de donzelas em perigo. Mas o cavaleiro da nossa modernidade, que veste de preto, está de saída, reformado e cansado, e não haverá quem o renda para caçar o que andará à solta nos corredores da casa que é toda branca.

Se não haverá cavaleiro para caçá-lo, talvez seja possível treiná-lo. Mas receio que esta maluca ideia de treinar dragões pertença exclusivamente ao cinema de animação ou àquelas produções cinematográficas de qualidade duvidosa que sugerem um dragão com um coração mole. Não. Este dragão nasceu numa fervura de raiva geracional que fará jus à representação tolkiena. Os seus dentes serão espadas. As suas garras serão lanças. O choque da sua cauda será como um raio. As suas asas serão um furacão. E a sua respiração será como a morte. Assim será o dragão da casa branca, grande e portentoso; aquele que lançará uma enorme e fria sombra sobre todo o mundo. Mal nascido ainda, já pôs todo o mundo de alerta. Há os que já repudia e ameaça, mormente reinos do oriente onde já foi grande figura, e os que lhe são muito queridos, como o reino do norte, onde o gelo manda e o folclore é diferente. Estranha-me particularmente esta relação com o norte. Talvez o reino do gelo tenha algum poder mágico sobre o dragão. Talvez, através de encantamentos e poções verdes à base da favorita bebida branca, tenha colocado uma mordaça invisível e um chicote fustigador que assobiará pelo ar se o dragão alguma vez se tentar libertar das amarras.  

Ouvi dizer que há uma mãe de dragões que sabe como controlá-los. Também tem o poder para debelar ameaças que vêm do norte, de terras de gelo sem fim que querem espalhar os seus terríveis rigores pelos mundos conhecidos. Se ao menos tivéssemos entre nós uma mãe dessas, quebradora de correntes... Consta que pertence ao reino mítico da televisão e que ainda não será desta que quebrará a quarta barreira. Resta-nos pensar noutras formas para combater o dragão. Já muito anunciou fazer e desfazer. Quer tirar direitos e ajudas, colocar tributações e construir muralhas. Talvez ainda mande fazer um fosso à volta para que ninguém chegue perto da sua casa, com daqueles crocodilos que comem pessoas inteiras e que choram gordas lágrimas enquanto o fazem. O dragão da casa branca, porque tem asas, nunca terá problemas com os crocodilos; poderá voar para onde quiser. Haverá de ir ao reino do norte, que tem um rei que também gosta de andar a cavalo, mormente de tronco nu olimpiano, e nunca aos do oriente, pois predizem muitas calamidades e este dragão não quer saber de metáforas.

Hoje o é o dia do dragão. Tem vindo a cuspir fogo em textos pequenos de 140 caracteres, enquanto se prepara. A partir de hoje poderá cuspir fogo pelos mares, pela terra e pelos céus. Se tivesse sete cabeças e dez chifres, diria que o apocalipse bíblico está sobre todos nós. Até pode estar, porquanto, convenha a verdade, todos ainda desconfiamos da natureza do couro cabeludo que reveste o dragão e não há como provar se debaixo da coroa dourada que a partir de hoje será de rei novo não se esconderão precisamente dez chifres e sete cabeças. Não temos a mãe dos dragões, nem o cavaleiro deposto; quem tomará conta desta besta? É rezar pelo melhor, mudar-nos para numa montanha e esperar pelo fim da tempestade de fogo. Há-de haver mais mundo para além do dragão.

    

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Do Brexit ao Amexit

O Brexit deveria ter servido de aviso. Contrariando todas as sondagens, o Não à Europa venceu. De forma sorrateira, o discurso populista, ferido de demagogia, espraiou-se pela população britânica como um cancro metastizado; não se fez sentir, não causou dor nem sofrimento. E como um cancro que faz chegar o seu toque negro aos recantos mais frágeis do corpo humano, o discurso populista promovido pelo pensamento extremista tomou conta das regiões menos favorecidas da ilha britânica, das franjas mais pobres e mais penalizadas pelo movimento globalizante que marcou a última metade do século XX e que caracteriza o arranque do século XXI. Nestes meios pequenos, isolados, regiões do interior onde outrora predominou indústria e agricultura, o sentimento antiglobalização adolesceu conforme o emprego se tornou mais tecnológico e se moveu para as regiões litorais e para as grandes metrópoles. Esta nova forma de emprego, associado ao internet of things, criou novas oportunidades e mudou radicalmente o mundo. Mas enquanto enaltecemos a mudança e nos entretivemos com todas as possibilidades que a internet nos proporcionou, enquanto nos abstraímos nos smartphones e na panóplia de redes sociais, as populações daquelas regiões, populações com menor grau de formação, rejeitaram amplamente a mudança. Enquanto louvámos as novas oportunidades tecnológicas, lamentaram a deslocação das indústrias e da agricultura para outras regiões do planeta, terras de mão-de-obra barata; lamentaram o desemprego que se originou e a perda do estilo de vida e do conforto financeiro que tinham.

                Ao mesmo tempo que estas mudanças aconteceram, o Reino Unido e os países da Europa abriram as suas fronteiras ao Mundo, à livre circulação de bens e de pessoas. E com isso assistiu-se a movimentos migratórios com foco nas grandes cidades europeias, com Londres à cabeça, acrescentando pressão sobre o frágil emprego nas franjas mais pobres e menos formadas. Quando, no Reino Unido, se chamou a população às urnas para dizer Sim ou Não à continuação do sonho europeu, o Não ganhou e deixou o Mundo de queixo caído, perplexo perante um resultado que contrariava todo o progresso atingido no último meio século. Como aconteceu isso? Com o grito de revolta das populações menos formadas contra a mudança que atribuíram à globalização, aos migrantes, ao novo mercado de trabalho, à multiculturalidade. Os resultados do Brexit mostraram a população profundamente dividida entre as gerações mais velhas e as gerações mais novas, os primeiros incontestavelmente a favor do Não e os segundos do Sim. Para os mais novos, que se sentem cidadãos da Europa e do Mundo, que ignoram fronteiras físicas, que rejeitam o racismo e o xenofobismo, que são tolerantes e condescendentes, ficou a ideia amarga de que o seu futuro foi hipotecado por aqueles que dele não farão parte.

Da mesma forma sorrateira que o Brexit prevaleceu, Donald Trump venceu as eleições norte-americanas. Usou e abusou do discurso populista, dividiu a América, incitou o ódio, insultou, mentiu, acusou, protestou, resmungou. Muito fez e disse para assustar os eleitores e deixar o Mundo inquietado. Mas para aquelas populações que, como no Reino Unido, perderam ao longo dos anos o emprego estável, que perderam o estilo de vida e o conforto financeiro, para aquelas populações esmagadoramente brancas que viram o deslocamento das grandes indústrias para a China e para o México, a escolha foi sempre simples. E Donald Trump, compreendendo o que funcionou no Brexit e a revolta que também havia no seio da América, prometeu fazer o país novamente grande, fazer regressar as indústrias, fechar fronteiras e bloquear a globalização. Donald Trump prometeu trazer o el-dourado dos anos sessenta e cinquenta. Prometeu à América branca o triunfo sobre as cada vez mais maioritárias minorias, sobre os migrantes, sobre o islamismo e a tolerância. A América interior sonhava regressar ao auge antigo, e Donald Trump abanou-lhes à frente a miragem da velha grandiosidade. Perante tal promessa nunca importou o seu discurso divisivo. Para os seus apoiantes, tudo o que dizia e insinuava não poderia passar de um estilo de retórica, de uma forma demarcada de se insurgir contra o establishment, o tal que abriu as portas à globalização, como no Reino Unido, e que deslocou os bons empregos para o outro lado do Mundo. Donald Trump disse as palavras certas aos eleitores certos nos sítios certos, e por isso venceu, por mais radical e aterrorizadora que a sua mensagem tenho sido durante meses. Perante tanta polémica, nunca arredou pé da sua hedionda retórica porque sabia que resultaria, porque o Brexit lhe tinha mostrado que funcionaria, mesmo se a esmagadora maioria das sondagens indicasse o contrário. Porque o Brexit lhe tinha mostrado que, após uma época de abertura, o Mundo voltara-se novamente para o populismo, para o demagogismo e para o despotismo, e que a oportunidade era dele.



domingo, 21 de agosto de 2016

Appelo virtual

Foi a imagem da semana. Será uma das imagens do ano, uma imagem que encapsula mais de cinco anos de guerra civil entre grupos armados, forças rebeldes e militares, aliados internacionais e facções terroristas, um conflito permanente por um pedaço de terra já irreconhecível e quase inabitável. A imagem de Omran Daqneesh, um menino de cinco anos sentado numa ambulância, coberto de sangue, mazelas e sujidade imediatamente após o resgate dos escombros de outro raide aéreo na destroçada cidade de Aleppo. O olhar distante que parece separar um mundo inteiro a ambulância da dor silenciosa de Omran. Sobrevivente fortuito de um indiferente ataque que vitimou cinco crianças, entre elas o seu irmão mais velho, o olhar de Omran, dividido entre a abertura total do olho direito e o semicerrar forçado por um inchaço do olho esquerdo, conta toda uma história que o mundo tem continuamente ignorado; contem a revolta das milhares de vítimas incógnitas da guerra civil da Síria, homens, mulheres e crianças que nunca receberam um palavra de conforto do mundo que as esqueceu.

A incontornável imagem de Omran Daqneesh percorreu o mundo inteiro. Multiplicou-se pelas redes sociais onde ganhou vida própria, noutra demonstração do poder da viralização que se tornou habitual nos nossos dias. Estranhamente, levantaram-se várias opiniões depreciativas, opiniões que apontaram o dedo ao acto da partilha instantânea sem grande reflexão; às partilhas com frases de ocasião e emojis de tristeza. Sim, muitos partilharam a foto de Omran sem conhecimento ou real preocupação pela guerra da Síria. Sim, muitos limitaram-se a dar seguimento a uma corrente viral, como já antes tinham feito com a imagem do corpo de uma criança na costa da cidade turca de Bodrum que evidenciou a face mais cruel da crise migratória na Europa. Sim, muitos limitam-se a momentos instantâneos de partilha e a breves lamentos, após o que resumem rapidamente o seu quotidiano sem tornarem a pensar na aflição das gentes que por um instante consideraram seriamente.
 
Esquecemo-nos daquele breve lamento que tomou apenas uma mão cheia de segundos, entre o clique na foto e no botão de partilha. Voltamos rapidamente às nossas preocupações e aos nossos problemas. Mas não o fazemos porque não nos preocupamos verdadeiramente com a guerra na Síria e com os outros conflitos e flagelos que se propagam um pouco por todo o mundo como doenças contagiosas. Resumimos rapidamente o nosso quotidiano porque é o que nos resta fazer. Porque a distância para os conflitos é enorme, porque os nossos lamentos se perdem rapidamente na nossa inabilidade para agir e resolver. Porque sozinhos não persuadimos nem influenciamos a tomada de decisão. Sozinhos, podemos tão-somente partilhar o nosso sentimento, mostrar brevemente a nossa dor pela real dor das incontáveis vítimas. Sozinhos, podemos apenas fazer clique na foto e no botão de partilha. Não vamos mudar o destino da guerra. Não vamos salvar vidas. Não vamos proporcionar a paz. Resumimos, portanto, o nosso quotidiano porque só nos resta isso.   

Será errado que, na nossa óbvia e trágica inabilidade para agir e resolver, partilhemos imagens da dor, dos horrores e dos terrores que não compreendemos totalmente? Será errado mostrar que estamos com aqueles que sofrem, que passam horrores e privações indescritíveis, mesmo que apenas por uma mera mão cheia de segundos? Será errado fazer parte de uma corrente viral que leva uma imagem incontornável, uma imagem que encerra uma guerra inteira, a todos os cantos do mundo? Será errado fazer parte de uma corrente alimentada por vozes e lamentos solitários contaminados pela trágica inabilidade para agir e resolver que pode eventualmente chegar àqueles com real poder de influência e decisão, às autoridades e aos grupos não-governamentais que podem intermediar o fim do conflito, de todos os conflitos, e reunir a preciosa ajuda humanitária que reduz o sofrimento dos inocentes e dá um pouco de voz e alegria ao seu prolongado silêncio, que enche novamente de luz os seus olhares distantes que nos parecem separar um mundo inteiro da sua dor?

Sim, sozinhos não alteramos o rumo destrutivo dos acontecimentos, mas às tantas partilhas e aos tantos lamentos criamos pressão sobre aqueles que têm o dever de resolver. Participemos pois na viralização de imagens como a de Omran Daqneesh, porque uma imagem incontornável pode ser o mote para o processo de resolução, para a paz; porque o sofrimento hirto de Omran Daqneesh, eternizado naquele breve momento numa ambulância qualquer, pode finalmente interessar o mundo a envidar esforços para estancar a hemorragia da Síria e a pôr termo aos conflitos e flagelos que dominam aquela região.    



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Pérola sem concha

Em pouco mais de seis anos, a Madeira e a sua capital foram avassaladas por desastres naturais que transfiguraram o panorama madeirense. No final de Fevereiro de 2010, um inédito nível de pluviosidade – o Funchal tem uma média anual de 750 l/m2 e registou em poucas horas 114 l/m2 – apanhou de surpresa a população madeirense. A aluvião que desceu das serras altas da capital madeirense arrastou casas, destruiu estradas, desfez campos de cultivo e vitimou quase uma centena de pessoas (relatos populares falam em números superiores). A baixa da cidade do Funchal ficou amplamente irreconhecível. Para quem como eu conhecia a cidade como a palma das suas mãos não pôde senão ficar aterrado e abalado pelas imagens devastadoras que preencheram espaços noticiosos e redes sociais. Turbulentas águas castanhas arrastaram terra, pedregulhos, carros, animais e populares e dividiram-se indiferentemente pelas ruas sobranceiras do Funchal, espalhando um rasto de destruição que ainda hoje não foi completamente apagado (obrigou à transformação da baía da cidade, com destaque para a construção da Praça do Povo no local onde os inertes da aluvião foram acumulados).  

A tragédia de Fevereiro de 2010, que também atingiu fortemente outras zonas da ilha, colocou em evidência um problema conhecido informalmente pelos madeirenses: o insuficiente ordenamento do território que ao longo de anos se manteve inalterado. O mau planeamento resultou ao longo do tempo na idílica paisagem madeirense, predominante nas encostas do Funchal, de casas de diversas formas e feitos a galgar vales e montanhas entre frondosas e cheirosas árvores autóctones da consagrada Laurissilva e dos seus princípios miocénicos e pliocénicos. O panorama é verdadeiramente bonito e impressionante; preenche álbuns e postais de cortar a respiração. Mas esconde a terrível realidade que a grande parte da construção madeirense está como calha e que não há quase prevenção. Quando a chuva caiu imperdoavelmente em Fevereiro de 2010, as águas tumultuosas não tiveram por onde desaguar. As ribeiras não estavam limpas. As casas estavam no caminho. A natureza, furiosa pelo seu impedimento, não teve meias-medidas e fez-se baixar por onde conveio, indiferente às gentes, aos seus bens e às suas vidas.

De 2010 até hoje, o Governo Regional da Madeira fez um esforço para limpar ribeiras e alargar e leitos. A maior obra, no vale sinuoso da Ribeira Brava, ainda continua seis anos depois. À boa maneira madeirense e portuguesa, a emenda só chegou depois da tragédia, no velho costume da acção-reacção. Nesse teimoso costume, os governantes da ilha concentraram-se nas ribeiras e no amotinar da terra e da água e ignoraram outros perigos que davam sinais de advir. O violento incêndio que no Verão de 2013 lavrou 50 hectares de floresta, com suspeitas de fogo posto, atingindo parte do Parque Ecológico do Funchal, não bastou para colocar as autoridades de pré-aviso, para promover a criação de um adequado plano de prevenção. Três anos volvidos, e novamente com indícios de fogo posto, o Funchal voltou a arder. Mas como nunca antes.

Das serras circundantes à zona histórica da cidade, chamas lavraram (lavram ainda) e consumiram vegetação e habitações, num inferno imparável alimentado pelo intenso calor e pelos ventos fortes, um inferno de chamas, cinza e fumo negro que mergulharam o Funchal num cenário dantesco. Mais de mil desalojados e pelo menos três mortos contabilizados. Dois hospitais evacuados e um emblemático e premiado hotel totalmente destruído. O suspeito do fogo posto não tem obviamente indulto possível. O seu tresloucado acto é um acto de terrorismo interno, promovido por uma visão pirómana que não foi totalmente tratada ou vigiada (o suspeito já tinha antecedentes criminais por fogo posto). Mas não é o único Nero da nova tragédia do Funchal. É preciso apontar o dedo aos governantes que, enquanto se ocupavam a preencher a ilha com betão e estradas que não serviam a população, ignoraram o lixo nas florestas, que raramente promoveram a imperativa limpeza da vegetação seca ou prepararam a ilha com meios de combate adaptados à sua particular orografia.

Como madeirense, ver as imagens do Funchal cercado por vorazes chamas enquanto a população tentava desesperadamente salvar as suas casas e o esforço de vidas inteiras com baldes de água e mangueiras sem qualquer pressão foi como um murro no estômago. Impotente à distância que me separa da minha terra-natal, custou-me não poder fazer nada. Mas custou-me mais ver que os hercúleos esforços da população não bastavam; que as corporações de bombeiros não chegavam, não obstante a sua valentia durante horas a fio; que o Governo Regional continuava a insistir na ideia de fogo controlado e a recusar ajuda externa quando o Funchal já reluzia na escuridão como um facho castigador e todos viam uma situação de total descontrole.


Ainda há duas semanas passeava pelas belas ruas da cidade. Visitei o Mercado dos Lavradores onde frutas exóticas abundam em bancas e caixotes desorganizados com cores diversas e cheiros contagiantes. Percorri as principais artérias que são dominadas por comércio de rua e por esplanadas pachorrentas onde os madeirenses tomam café com a sua habitual tranquilidade. Hoje o dia será certamente diferente. O fumo e a cinza preencherão o Mercado e o cheiro não será de frutas exóticas ou do peixe fresco mas da pestilência da madeira queimada e do ar carbónico. Nas ruas não se tomará café descansadamente entre conversas sobre desporto, turistas e o estado do tempo. O Funchal e a Madeira acordam de forma diferente, com um gosto amargo na boca de quem não consegue acreditar no que aconteceu. Um gosto amargo que se prolongará nas próximas semanas e que reprimirá o espírito dos madeirenses nos variados arraiais que acontecem ao longo do mês de Agosto (já no próximo dia 15 teria lugar a emblemática festa do Monte e agora, no coração do incêndio, não é certo que vá acontecer). O mesmo gosto amargo que, à distância, me recebeu pelo amanhecer mesclado num medo de que, quando tudo voltar eventualmente à normalidade, se volte a ignorar os avisos do passado e a trocar prevenção por construção, alerta por festa.


sexta-feira, 24 de junho de 2016

Carta aberta à União

Como é que chegaste a isto? Falhaste. Estás a falhar. Estás a ruir pelos teus próprios alicerces. Toda a tua estrutura treme como algo que procura o equilíbrio perdido durante um terremoto súbito. Não há canto onde te abrigues. Estás ali no meio, no olho do terremoto, fustigada por ondas de choque que vêm de todos os lados e que vão para todos os lados. Só te resta subsistir, protegeres-te com as mãos dos objectos que voam, das paredes que caiem, do chão que te foge. Ai, pobre União, aí sozinha no meio do terremoto. Não há quem te valha? Não haverá quem te possa acudir? Não reconheces que és culpada do teu próprio fadário? Não reconheces que o alimentaste com a tua retórica torta, com o atropelar dos teus próprios princípios, com o teu foco cego, desmedido e indomável no freio orçamental que colocaste aos teus alicerces? Ó União, como não vês que este chão que se fende à tua frente e te coloca à beira de um abismo sem fim foi causado por ti mesmo. Fugiu-te um alicerce e desequilibrou-te a trave-mestra. Como é que o deixaste fugir? Como é que não soubeste prever que te desertaria se continuasses a fazer de conta com todos os problemas que afligiam a tua fundação, se continuasses unicamente preocupada com o freio orçamental que colocaste em todo o lado e que redobrou o peso e o esforço sobre cada alicerce? Como é que não viste que te desertaria se continuasses a ignorar a mudança de pensamento que floresceu em todo o lado, o crescente abandonar da entreajuda entre os teus alicerces, o erguer da aversão entre aqueles que ficam na parte de cima contra aqueles que ficam na parte de baixo?


Não viste nada. Continuaste a insistir no que já não surtia efeito. Substituíste a pedagogia pela demagogia, ameaçaste em vez de aliciares, focaste-te no que perdiam em vez do que ganhariam, falaste do dinheiro e da despesa em vez de falares dos princípios, da paz, da força e do futuro. O alicerce desconfiou do teu discurso torcido e abandonou a tua fundação. Agora tremes. Sofres um terremoto que não sabes como acabará, como te deixará no fim. Segura-te aos 27 alicerces que te restam. Redistribui o peso e volta a equilibrar a tua trave-mestra. Reconhece onde falhaste, onde continuas a falhar. Muda o teu discurso, a tua visão e a tua intenção. Volta às ideias que primeiro te ergueram e te transformaram num sonho corpóreo, que embelezaram por onde te construíste e apaziguaram por onde actuaste. Volta a essas ideias. Lembra-te do passado, do que foi antes de ti. Pensa no que pode voltar a ser sem ti. Tremes agora porque já não há nada a fazer. Caiu-te esse alicerce, esse que era um dos teus mais fortes e queridos. Deixa o orgulho de parte. Concentra-te no que importa. Aguenta essas ondas de choque que te afligem. Acredita nos alicerces que te sobram. Acredita que se mudares podes persistir. Tudo depende ti. Do que agora decidires. Nunca foi tão importante. Nunca tão concludente. O terremoto que te desequilibra será parte da história, mas essa história ainda está por escrever. Não temas. Enfrenta o desafio. Faz ruir as fronteiras que querem voltar a erguer-se, essas, malditas, que já tanto custaram. Dá a volta ao conservadorismo que te tornou negro o coração. Volta a inspirar. A apontar o caminho. Volta a levar longe aqueles que, sozinhos, agarrados ao seu único alicerce, nunca terão força para ir a lado nenhum. Volta a ser uma união e a escancarar as portas do futuro. Ainda acreditamos.     


domingo, 24 de abril de 2016

O grande ciclo das coisas

Quando era criança, eu e a minha irmã mais nova gostávamos de brincar a inventar castelos e percursos de água na areia preta do quintal que o nosso pai um dia improvisara com o material que lhe restava das construções que fazia por profissão. À volta de uma velha e frondosa anoneira que nos brindava com uma plácida sombra em dias de muito calor, construíamos trilhos com engenho e destreza, erguendo pontes e abrindo lagos largos que imitavam a nossa imaginação do mundo. Com os nossos próprios dedos, sem cansaço ou aversão, moldávamos todo o quintal à nossa maneira. Quando os trilhos estavam prontos depois de um dia inteiro de trabalheira, de roupa suja e de muita areia presa nas unhas, puxávamos a água da mangueira e víamos com maravilhamento o mundo que criáramos ganhar vida. Não havia maior satisfação do que aquela. Naquele momento eramos todo-poderosos. Eramos donos do mundo. Daquele pequeno mundo de frágil areia. Era só nosso e eramos nós quem ditava as suas regras. Naquele pequeno mundo habitariam todos os pequenos seres que a nossa cabeça inventariava. Talvez ali vivessem elfos e fadas. Talvez vivessem pequenos homens que desciam o trilho de água brava em jangadas de folhas de anoneiras; construíam casas e castelos, aldeias e cidades e prósperas sociedades que caberiam numa algibeira. Ao entardecer a brincadeira terminava. A nossa mãe surgia para cortar a água e, com as mãos nas ancas na sua famigerada posse de autoridade, para nos dar lições sobre custos e desperdícios. Era mais uma lengalenga que pouco nos consumia e lá desfazíamos imediatamente o nosso pequeno mundo de areia. Fazíamos ruir as pontes e cobríamos os lagos. Mas não ficávamos tristes, porquanto no dia seguinte daríamos novamente vida a um novo empreendimento. Era o ciclo das coisas. Aprendemos logo. Aprendemos ali que tudo o que era construído haveria de ruir um dia para dar lugar a coisas novas. Era mesmo assim que era e que seria para sempre enquanto os homens caminhassem na terra. Era o que toda a gente nos dizia. E o nosso pequeno mundo de areia mostrava-nos, nas suas diferentes existências, que era mesmo assim.

As nossas brincadeiras não eram só construções de areia. Às vezes íamos em carreiras de saudável rivalidade para debaixo de uma ponte feia que ficava perto de casa. O corgo, chamávamos-lhe. Ali acocorávamo-nos à beira de um ribeiro que nascia algures na serra de loureiros, tintureiros e acácias. Com considerável paciência, ficávamos entretidos durante um par de horas a apanhar girinos com baldes e com as próprias mãos. Por vezes, e porque era mais interessante e francamente mais fácil, apanhávamos a forma ainda embrionária destes futuros batráquios e colocávamos em casa em baldes fundos com água e lodo da própria ribeira. Todas as manhãs íamos logo ver como tudo estava. Era a primeira coisa que fazíamos, mesmo antes de nos sentarmos para o pequeno-almoço de copos de leite e deliciosas douradas. Os ovos minúsculos e translúcidos dos batráquios abriam-se ao cabo de um ou duas semanas e os girinos ziguezagueavam para fora. A primeira coisa que os recém-nascidos faziam era conhecer todo o mundo que os acolhia e que não era mais do que um balde fundo e opaco. Talvez na sua pequeneza vissem o mundo como algo misterioso e infinito, com as suas fantasias e os seus segredos. Desconheceriam provavelmente que afinal não passavam de uma experiência e da folia de duas crianças igualmente inocentes, sem maldade, quiçá também elas dentro de um balde de rochas e imponentes montanhas que era a bela ilha em que viviam. Para aqueles girinos e para aquelas crianças, o mundo encerrava enigmas grandiosos. Ao fim de alguns dias, os girinos começavam a mostrar sinais do seu rápido desenvolvimento. Primeiro surgiam as patas de trás, de início duas dependências ansiformes de aparência inútil que um dia se transformariam em duas robustas patas posteriores que confeririam a estes pequenos seres o poder de saltar quase cem vezes o seu tamanho. Depois as suas vistosas caudas encolhiam e surgiam as patas anteriores. Por fim, a cauda desaparecia completamente e os girinos completavam a sua metamorfose. Eram jovens sapos e o balde que tinha sido o seu mundo inteiro durante toda a sua vida já não tinha mistérios nenhuns nem era infinito. Era pequeno para os seus ensejos. Por mais que tentássemos mantê-los no seu balde-mundo, cobrindo-o com lonas ou com as redes vermelhas de sacas de batatas, os jovens sapos saltavam sempre para fora. Mais tarde ou mais cedo saltavam quase cem vezes o seu tamanho para descobrir uma nova realidade, para alargar as fronteiras do seu mundo e fazer cumprir as suas aspirações. Na verdade, não iam para muito longe. Ficavam-se pelo ribeiro que corria mesmo ao lado da nossa casa, mas para quem em toda a sua existência só tinha conhecido um balde fundo era uma mudança monstruosa. Os jovens sapos ficavam a coaxar pelas noites fora, enquanto faziam a sua vida e as suas escolhas. Nenhum deles alguma vez regressou. Ficávamos sempre tristes, eu e a minha irmã mais nova. Depois de tanta dedicação nossa, os jovens sapos tinham ido embora sem hesitar. A nossa irmã mais velha, que diferenciava de nós alguns anos de idade, chegava das suas tardes com cafés e amizades a tempo de nos acalmar. Ela, que era mais sapiente, que entrevia um mundo maior e que já tinha passado por todos os nossos dissabores, fazia-nos ver que era mesmo assim. Era o ciclo das coisas.

Quis o destino (na verdade a sua idade), que ela fosse a primeira a dar um salto cem vezes maior que o seu tamanho. Ao cabo de alguns anos foi a minha vez e depois a da minha irmã mais nova. Um por um abandonámos o nosso balde. Abandonámos uma ilha que para nós já não era misteriosa nem infinita. Para nós, que dávamos aquele salto cem vezes maior do que o nosso tamanho, a sensação era maravilhosa. Tal como os jovens sapos do balde fundo, trocávamos um mundo que já conhecíamos bem e que já não satisfazia as nossas aspirações por algo perfeitamente desconhecido. Partíamos para uma nova realidade e para um mundo grande que encerrava muitos mistérios. Lá, no novo mundo, poderíamos reinventar-nos e moldar a nossa vida como fizéramos antes com as construções na areia. Mas para a nossa mãe e para o nosso pai que ficavam para trás no seu mundo corriqueiro, a sensação era desoladora. Era certo que ficavam profundamente orgulhosos e que se despediam de nós com dezenas de sorrisos e incentivos. Mas conforme cada um de nós subiu lentamente as escadas rolantes do aeroporto da nossa ilha para a área de embarque, podemos ver entre cada aceno e desejo de boa fortuna um ar variegado de angústia e incomportável saudade, ar de quem sabia que nada voltaria a ser o mesmo e que aqueles que agora saltavam para fora do balde, embora fossem voltar muitas vezes para visitá-lo, nunca mais voltariam para viver nele, porquanto doravante o seu mundo era consideravelmente maior do que aquele. Cada um de nós sentiu a sua despedida como um murro no estômago, mas nenhum de nós sentiu um murro tão devastador como o que os nossos pais sentiram por três vezes. Nunca será fácil descrever tamanha sensação e nunca se repetirá.


O nosso mundo abriu-se num salto cem vezes, mil vezes, dez mil vezes maior do que o nosso tamanho e começámos a perceber que o mundo, embora não seja de construções de areia, está em constante renovação e que sempre rui para dar lugar a coisas novas. A nossa metamorfose concluiu-se e a nossa grande ambição é que o mundo nunca fique pequeno de mais e que tenha sempre mistérios e oportunidades. Mas a vida é difícil. O nosso país enfrenta tempos complicados e o próprio mundo, não obstante a sua dimensão e pluralidade, parece embrenhado em vícios, disputas e acusações que não têm fim. Tudo o que há-de vir para a frente permanece incógnito, como tem que ser. O nosso desejo é que o que quer que venha nos permita sempre construir coisas. Que nos permita ser donos desse pequeno mundo construído, que ditemos as suas regras e que, num devaneio ou num rasgo de inconcebível lucidez, o habitemos com os seres que a nossa cabeça inventa. O nosso desejo é que o que quer que venha nos tolere baldes carregados de vida. Que, ao contrário dos jovens sapos que em tempos tivéramos, nos consinta voltar sempre à casa ao pé da ribeira, ao quintal resguardado pela sombra da anoneira e ao corgo sob a ponte feia onde fomos crianças inocentes que tinham um mundo que cabia na palma da sua mão. O nosso desejo é que o que quer que venha nos ajude a regressar sempre à casa ao pé da ribeira, por mais que pequeno tempo, e que cada regresso diminua o aperto daqueles que ficaram no balde e que se calhar não deram o seu salto cem vezes maior que o seu tamanho para que nós pudéssemos. É este o grande ciclo das coisas. E se não for, ou se não tem sido, façamo-lo ser.     


quarta-feira, 9 de março de 2016

Geração de muitos nomes

Esta semana o The Guardian revelou números preocupantes sobre a geração nascida entre 1980 e meados da década de 90. Sobre a minha geração. A investigação levada a cabo pelo jornal britânico revelou que a actual geração de jovens adultos está cada vez mais afastada da riqueza gerada no mundo ocidental, ganhando em média menos 20% do que a média da população activa. Há 30 anos, os jovens adultos recebiam acima da média nacional. Em 2016 têm menos rendimento disponível que pensionistas e enfrentam muito maiores obstáculos para se estabelecerem como adultos independentes que as gerações anteriores. É uma geração que para se independentizar completamente, para ter uma casa ou formar uma família, tem que fazer sérios compromissos financeiros. O The Guardian conclui que a geração em causa não está a atingir as etapas fundamentais da vida adulta ao mesmo ritmo que as gerações anteriores porque tais etapas são muito mais caras e porque esta geração está a ser pior renumerada do que os seus progenitores com a mesma idade.  

Pertencendo a esta geração, só posso confirmar o cenário pessimista traçado pelo jornal. Aliás, considero-o francamente pior, porquanto a investigação debruça-se sobre dados de poderosas economias como os EUA, o Reino Unido ou a Alemanha. Portugal não entra nestas contas, mas todos temos noção de que estamos pior do que o resto da Europa e do Ocidente, que caminhamos na cauda do crescimento há largos anos. Se nestes países se constata uma perda de rendimento nas gerações mais novas, que dizer de Portugal? Que dizer dos milhares de jovens adultos portugueses sem emprego, ou com emprego precário, comummente em áreas de actividade distintas daquela em que se formaram? Que dizer de um país em que o desemprego jovem ronda os 35%, contra os já preocupantes 17% da média europeia? Que dizer de um país que, agrilhoado durante anos pelos ferros da austeridade, assistiu nos anos recentes a uma fuga de cérebros, sugerida até pelo Estado português? Estaremos perante uma geração perdida? Estarei inserido numa geração de potencial desbaratado, de criatividade inibida e de constante desvalorização do conhecimento adquirido?

Como gostaria de escrever outra ideia e como me dói reconhecer esta. Sei as dificuldades que os jovens da minha geração enfrentam quando terminam os estudos. Sei as dificuldades que sentiram para levá-los a bom termo. Conheço muito bem os sacrifícios feitos por pais e famílias para, perante bolsas de estudo exíguas e propinas altas, garantir um diploma superior aos filhos. Um diploma que em décadas assegurava uma espécie de el-dourado e que hoje em dia apenas assegura o empolado axiónimo Dr. antes do nome num cartão de multibanco. Um diploma dantes considerado com estima e agora encarado como um singelo atestado de conhecimentos diversos. Um diploma que permite acesso a estágios profissionais, raramente a trabalho certo, embebidos em promessas extensas de continuidade e perspectivas salariais rapidamente extinguidas em trabalho extraordinário, precário ou gratuito. Temos menos rendimento que as gerações anteriores? Sim; às vezes nem o temos. Mas pior é não ter a mesma quantidade de oportunidades. Pior é não ter perspectivas de futuro e sentir das gerações anteriores pressão para iniciar a vida adulta nos mesmos parâmetros delas. Sentir destas gerações que ter casa arrendada não vale, não ter carro próprio é uma vergonha e permanecer solteiro é uma fatalidade.


Já fomos chamados de millennials, de geração Y e de geração à rasca. Somos a geração de muitos nomes. Somos a geração dos elevados custos de vida, do arrendamento, do passe social e do Porta 65. Somos a geração do desemprego altamente qualificado, da precaridade e dos recibos verdes. Somos a geração do vestir a camisola, das horas extra, dos estágios e pré-estágios, da renumeração em forma de experiência profissional e dos trainees com experiência. Somos a geração sem poupanças, da mutabilidade profissional, dos contratos a seis meses. Somos a geração sem carreira profissional. Somos a geração proibida de perspectivar o futuro que se esfoça para se visualizar daí a cinco anos em entrevistas de emprego. Somos a geração não-emancipada, financeiramente dependente e arrestada. Somos a geração acusada de atrasar a sua independência, de se perder em tecnologias e movimentos trendy, nas selfies, no Facebook e nos tweets. Somos a geração mais qualificada, capaz de falar mais do que uma língua e de dominar diferentes áreas. Somos a geração que mais tempo permanece em posições juniores. A geração que não recebe aumentos ou promoções. A geração aconselhada a emigrar. Somos a geração que conta tostões a meio do mês. Das férias cá dentro. Dos tascos e bares escuros. Somos a geração solteira e sem descendência. Somos uma geração de transição. Uma geração perdida. Um mito futuro?


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Um estranho fait divers

O Orçamento de Estado (OE) para 2016 foi aprovado na generalidade com um histórico “sim” das esquerdas. António Costa anunciou que o OE representa o fim da austeridade. A direita do espectro político acusou-o de a transferir. O Primeiro-Ministro explica que a redução da sobretaxa e a reposição de pensões representa um virar efectivo de página na austeridade. PSD e CDS apontam que o que o Governo reduz em sobretaxa e repõe em pensões vai buscar a impostos acrescidos sobre o tabaco, produtos petrolíferos (ISP) e impostos sobre lucros bancários (IS). Ambos estão errados e certos ao mesmo tempo. Entre a retórica do Governo e a da Oposição mescla-se a escolha quasi-ideológica entre impostos directos e indirectos, uma visão de filosofia económica entre a emancipação fiscal e o feudalismo tributário.

Os impostos directos são aqueles que incidem directamente sobre o rendimento, quer das pessoas singulares (IRS) quer das pessoas coletivas (IRC). Os impostos indiretos são aqueles que incidem sobre o consumo ou a despesa, incidindo sobre a generalidade dos bens que consumimos diariamente (e.g. IVA, ISP, IS). O OE de 2016 prevê a redução de IRS (na sobretaxa criada em 2011) e o aumento de ISP e IS. Há efectiva redução de austeridade ou transferência desta? Depende. Depende da forma como olhamos para a tributação. A minha crença é de que qualquer redução em impostos directos se traduz numa efectiva redução de austeridade pelo simples facto de que o contribuinte ganha maior autonomia sobre o seu rendimento. Enquanto os impostos directos são comummente aplicados com retenção na fonte (compreendendo a diferença entre o nosso salário bruto e o salário líquido), os indirectos existem apenas e no momento em que alguém consume determinado bem, pagando no preço o respectivo imposto sobre o valor acrescentado. No limite utópico em que a totalidade de impostos directos são substituídos por impostos indirectos, ceteris paribus, se nada se consumir não haverá lugar a tributação. A opção de sermos ou não tributados, e a extensão desta, está alinhada com o nosso perfil de consumo.

A “bondade” dos impostos é indiscutível. Sem impostos, a sociedade não funciona. Sem receita, nenhum Estado pode facilitar à sua população serviços de valor acrescentado que não existiriam se dependentes da vontade individual. Mas o princípio de que o Estado se apodera de um terço do trabalho de alguém só porque as regras e o facilitismo assim o determinam lembra um agrilhoado sistema medieval, feudalista, em que o simples servo entrega parte da sua produção, dos seus herculanos esforços ao sol, à chuva e ao incontrolável suor, ao senhorio, à nobreza ou à realeza, que têm poder para assim deliberar, sem manobras impugnatórias. O sistema feudal da Idade Média pautava-se por capitações, banalidades e talhas. Tantos anos volvidos, o sistema não mudou, apenas se transfigurou. O trabalhador já não entrega um terço da sua produção ao senhorio, mas entrega um terço do seu rendimento ao Estado. O trabalhador já não paga banalidades para usar moinhos, fornos e pontes, mas paga taxas moderadoras para ir a um hospital, propinas para frequentar o Ensino Superior e portagens para usar pontes e estradas. O imposto adaptou-se à industrialização e à terciarização, mas não se modificou na sua essência. E é por o sistema fiscal actual partir de um princípio errado que agora reflicto sobre ele. É necessário partir progressivamente para um sistema fiscal mais musculado, assente no imposto indirecto e no perfil de consumo, com os inerentes ajustamentos inflacionários e dedutivos.

Com impostos total ou maioritariamente indirectos, não obstante percentualmente mais elevados a fim de conservar a receita fiscal do Estado, as famílias terão mais rendimento disponível. Poderão aplicá-lo em consumo. Ou não. Têm essa autonomia. A aplicação de impostos mais altos sobre bens de luxo e mais baixos sobre bens de primeira necessidade salvaguarda a tributação progressiva, no princípio de que o perfil de consumo varia consideravelmente das franjas mais altas às mais baixas da sociedade. Aqueles com mais rendimento consumirão em tese mais e mais em bens de valor acrescentado. Por outro lado, perante uma inesperada dificuldade financeira, um indivíduo poderá optar por refrear o seu consumo, ou alterar a tipologia de bens consumidos, ao passo que o imposto directo, retirando rendimento independentemente da condição financeira no momento da retenção, reduz consideravelmente esta alternativa.

Voltando ao OE de 2016, António Costa está correcto quando anuncia a redução da austeridade. Efectivamente, com menor retenção na fonte, o rendimento das famílias aumenta. Se depois este aumento se perde ou não no consumo, é uma escolha das famílias. O argumento rapidamente surgirá de que poucos ou ninguém pode evitar o imposto sobre produtos petrolíferos e o imposto de selo que agora aumentam. Mas tem em teoria a capacidade de evitar se eleger outro meio de transporte ou evitar o recurso a créditos bancários. Pode não ser prático, mas a passagem dessa retenção na fonte para uma retenção no momento do consumo significa um progresso no sentido da emancipação fiscal. Já não falamos em austeridade, mas em restrições. Já não perdemos uma parte do rendimento só porque sim. Perdemos porque aceitamos as condições para um determinado tipo de consumo.


Algum dia deixaremos os impostos directos para trás? Dificilmente. São mais fáceis de aplicar, de corrigir e de fiscalizar. Nenhum trabalhador se pode isentar. É a condição mínima de trabalho. Mas continuaremos dispostos a uma tributação intrinsecamente feudatária? Tenho dúvidas… Se calhar nada nesta reflexão faz sentido e facilmente se reunirá um conjunto de fortes evidências a favor dos impostos directos. À cabeça penso na simplicidade em determinar a carga contributiva de cada um e o risco de o incremento no rendimento potenciar a economia paralela. Fica a minha mea culpa. Mas se este desabafo faz ponderar minimamente, então não se trata meramente de um estranho fait divers que hoje adula esta página, desprovido de qualquer mérito. E isso já é um notável avanço.      


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Europe of PIIGS

Sempre me honrei por ser europeísta. Sempre reconheci a importância da União Europeia para Portugal e para a economia portuguesa. Sempre defendi uma Europa unida. Sempre acreditei que o caminho para a frente seria necessariamente com progressiva integração, porventura até à instalação de uma integração económica total no continente europeu. Todavia, ao longo dos últimos meses, sinto-me com uma sensação amarga em relação à Europa.

Finda a 2ª Guerra Mundial urgia sarar feridas na Europa. Urgia reduzir a crispação, estabelecer pontes e introduzir uma época de estabilidade e crescimento. É certo que ainda houve um muro a dividir Berlim e famílias até 1989, é certo que ainda houve conflitos nas regiões balcânicas provocando milhares de vítimas e desalojados, mas é inegável que a génese da União Europeia a partir da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço e da Comunidade Económica Europeia trouxe uma época próspera de aproximação entre os povos europeus, com abertura de fronteiras e livre circulação de pessoas nos países signatários do Espaço Schengen. Época que, com a criação da moeda única colocada em circulação em 2002, trouxe importantes apoios e possibilidades de crescimento aos países pior posicionados dentro da União.

Até 2007, a robustez da União Europeia era inegável e tudo indicava que fosse aumentar. O Tratado de Lisboa assinado no final desse ano trouxe uma maior integração política entre os países da comunidade, transformando o Banco Central Europeu numa instituição oficial, criando um Tribunal de Justiça pautado por uma Carta dos Direitos Fundamentais juridicamente vinculativa e estabelecendo uma Política de Defesa e de Segurança comum marcada pela solidariedade mútua. Em 2008 tudo mudou. A crise internacional iniciada com a crise do subprime norte-americano criou cissuras no continente europeu e introduziu uma divisão informal entre os países do norte e os países periféricos e do sul mediterrânico, doravante designados por PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha). Historicamente, estes cinco países ficaram continuamente atrás dos restantes nos índices de crescimento económico, apresentando regularmente défices e aumento de dívida pública. Não obstante, a pertença à União Europeia e à moeda única significou quase sempre um auxílio à asfixia financeira que os mercados internacionais colocavam, na linha do princípio de solidariedade que vinculava toda a União.  

A partir de 2008 a atitude mudou. Sem uma protecção europeia robusta, Irlanda, Grécia e Portugal foram sucessivamente alvo de especulação negativa por parte de agências de rating que foram cortando a qualidade da dívida destes países até ao nível de lixo, impossibilitando-os de se financiar nos mercados. Ora, e porque nenhuma nação vive sem dívida, resultaram inevitavelmente pedidos de ajuda financeira internacional ao BCE e ao FMI. Resultou a temível troika. Em 2012, e quando Espanha e Itália começavam a ser alvo da mesma especulação negativa, o BCE de Mário Draghi decidiu-se por uma magia financeira que quase imediatamente acalmou a subida de juros de dívida por todo o lado. Através do programa Outright Monetary Transactions, Draghi passou a comprar títulos soberanos dos países membros da zona euro, implicando uma transferência de riscos. Mais do que a panóplia de medidas de austeridade implementadas em Portugal pelo anterior Executivo, foi o programa de Draghi que fez descer as taxas de juro e que permitiu que Portugal voltasse a negociar nos mercados de forma razoável. Aqui, o mecanismo de solidariedade da União funcionou, mas fica até hoje por se perceber porque é que o mesmo não foi accionado mais cedo quando Irlanda, Grécia e Portugal sofriam especulação agressiva. Muito poderia ter sido diferente. A austeridade não teria sido potencialmente tão draconiana.

Agora que Portugal tem um novo governo que promete reduzir austeridade sobre as famílias, reduzindo carga fiscal e repondo pensões e salários, a União volta a virar costas. O Orçamento para 2016 segue uma linha de retórica diferente daquela que os decisores europeus e os analistas internacionais consideram certa. Mais do que uma incompatibilização técnica, trata-se de uma incompatibilização política. O Governo português prevê que a economia cresça e que Portugal cumpra os seus compromissos através de uma forte aposta no rendimento e no consumo. Decisores europeus e analistas internacionais acreditam que este caminho só pode ser conseguido através de austeridade, de agressão fiscal e de contenção na despesa pública. Ideologicamente, as duas visões para a economia portuguesa não podiam ser mais contrárias. Perante a desconfiança para com o cenário traçado por Mário Centeno, as agências de rating voltaram a ameaçar com a sombra da especulação. Novamente, a União esqueceu o princípio de solidariedade e colocou-se do lado errado, apostando contra Portugal. Pelo meio ignorou a soberania da nação portuguesa e a sua autonomia para decidir o rumo dos seus negócios, não obstante as garantias do novo Executivo de que todos os compromissos internacionais seriam cumpridos. A mesma União que fechou os olhos à aprovação na Dinamarca do confisco de bens (acima de 1340 euros) aos refugiados que chegam das regiões de conflito no Médio Oriente. A mesma União que fechou os olhos ao fecho unilateral de fronteiras na Hungria e noutros países limítrofes da Europa, colocando em causa o Espaço Schengen. A mesma União que enfrenta a possibilidade de saída do Reino Unido – um dos seus principais membros fundadores – em discordância com os diversos mecanismos de solidariedade entre os Estados-membro. A mesma União que perante a hipótese de viragem à esquerda em Espanha quer fazer de Portugal exemplo.


Por estas e muitas mais razões que escapam a esta breve análise, a desilusão com a União Europeia é ineludível. O tratamento arrogante dos países do norte para com os do sul enjoa. O tratamento disforme e arrogante para com Portugal merece repúdio. Sempre me honrei por ser europeísta. Sempre reconheci a importância da União Europeia para Portugal e para a economia portuguesa. Sempre defendi uma Europa unida. Sempre acreditei que o caminho para a frente seria necessariamente com progressiva integração, porventura até à instalação de uma integração económica total no continente europeu. Todavia, sinto-me frio e distante em relação à Europa. Sinto um desconfortável desencanto. E um considerável medo de que, por um fugaz instante de fraqueza, a ideia do “orgulhosamente sós” me passe pela cabeça.


segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Limpinho! Limpinho... Limpinho?

Quantos mais dias decorrem desde que o governo de PSD/CDS abandonou o Palácio de São Bento, mais fica a opinião pública esclarecida e convencida que a empolada e galvanizada saída de Portugal do Programa de Assistência Económica e Financeira foi tudo menos limpinha, limpinha, limpinha. A venda do Banif ao grupo Santander por uns míseros 150 milhões de euros e a consequente revelação da admissão da Comissária Europeia da Concorrência que a venda do Banif vinha a ser sucessivamente adiada "para não colocar em causa a saída de Portugal do Programa de Assistência Económica e Financeira" são a machadada final no embelezamento por que Passos Coelho, Maria Luís Albuquerque e Paulo Portas tanto batalharam. Na admissão da Comissária datada de Dezembro de 2014 ficou ainda a saber-se que a Direção-Geral da Concorrência rejeitou oito planos de reestruturação do Banif desde Dezembro de 2012, altura em que o banco fora recapitalizado pelo Estado português, arrastando a morte lenta da instituição financeira madeirense para o cenário comatoso que o Primeiro-Ministro ontem desligou por fim.

O alerta de que o Governo português se arriscava a vender o Banif a preço de saldo já era antigo. Com a entrada em vigor a 1 de Janeiro de 2016 de uma nova legislação europeia sobre a liquidação e reestruturação de instituições bancárias que impõe o 'bail-in' – em que obrigacionistas seniores e grandes depositantes (acima de 100 mil euros) são chamados a pagar parte de uma eventual resolução – a urgência de uma resposta para o Banif era conhecida há largos meses. Nada foi feito. A iminente entrada desta legislação criou nas últimas semanas uma situação “contra-relógio” que podia e deveria ter sido evitada. Imperiosamente. Com as eleições à porta, o anterior executivo elegeu deixar a batata quente em banho-maria, temente que a perigosidade financeira e o fim da ilusão de saída limpa do Programa de Assistência Económica e Financeira prejudicasse as suas hipóteses no sufrágio. Agora, com pouco mais do que 3 semanas para se inteirar da situação do Banif e tomar uma decisão, o executivo liderado por António Costa optou pela única óbvia saída à sua frente.

A decisão do Governo acarreta um custo muito elevado para os contribuintes. O próprio Primeiro-Ministro reconheceu. Inclui um apoio público estimado de 2,255 mil milhões de euros para cobrir contingências futuras (489 milhões de euros pelo Fundo de Resolução e 1,766 mil milhões de euros directamente pelo Estado). Em contrapartida, o Banco Santander Totta entrega 150 milhões de euros ao Estado português e fica com a generalidade da actividade do Banif, passando os clientes e as agências do banco madeirense a serem clientes e agências do Banco Santander Totta. O negócio inclui ainda a transferência de activos problemáticos para um veículo de gestão de activos, sendo que no Banif, de ora em diante “banco mau”, permanecerão um conjunto muito restrito de activos (para futura liquidação) e as posições accionistas, dos créditos subordinados e de partes relacionadas. À cabeça, a decisão do Governo implica desde já um orçamento rectificativo e a revisão em alta do défice de 2015 para 4% (contra o défice de 2,7% que o executivo anterior bradava).

O desconforto de António Costa com a decisão de venda da participação do Estado foi evidente na sua declaração ao país. Apenas dois dias antes seis candidatos apresentavam propostas de compra (os espanhóis Santander e Popular, o norte americano Apollo Managment, o fundo norte-americano J.C. Flower e ainda um fundo sino americano ligado ao Haitong Bank que comprou o BESI há um ano). Perante a noticiada urgência para vender do Governo português, os seis candidatos propuseram módicos valores para a aquisição do banco (enquanto certamente esfregavam as mãos de regozijo ante tão grande pechincha). Afinal, não é todos os dias que um banco com depósitos na ordem dos 6,1 mil milhões de euros no fim de Setembro está a preço de saldo. Não obstante os exíguos valores em cima da mesa, a decisão teve que ser prontamente tomada. António Costa afirmou ser a solução "que melhor protege a estabilidade do sistema financeiro português", mas nem o primeiro-ministro pareceu muito convencido disso. Talvez a solução pudesse ter passado por uma integração dos activos bons do Banif na Caixa Geral de Depósitos, onde se manteriam sob o controlo público. O dinheiro a injectar manter-se-ia sob controlo da esfera pública. Todavia, pressionado por prazos cada vez mais curtos, António Costa não teve espaço para ponderar outra solução que não a venda rápida do Banif, a única que no imediato protegia depositantes e trabalhadores, embora seja provável que no futuro estes últimos vejam os seus contratos em risco com a inevitável duplicação de estrutura.


A propositada indefinição do anterior executivo para manter a forçada e espalhafatosa maquilhagem de saída limpa do Programa de Assistência Económica e Financeira, ignorando sucessivos avisos da Comissão Europeia e rejeitando liminarmente várias propostas de reestruturação do Banif, não pode agora passar incólume. É um sério caso de gestão danosa, com claro dolo para o contribuinte português. Já estão prometidas comissões de inquérito parlamentares, mas não podem novamente ficar apenas pelo disse e diz que disse. Não podem novamente terminar na prorrogação da impunidade e do ciclo vicioso financeiro. Já vimos todos uma semelhante história com o Banco Espírito Santo. Já vimos como o homem responsável pelo seu desfecho permanece incólume, apenas reduzido da sua posição de “dono disto tudo” para dono de uma grande fortuna alimentada por negócios obscuros. Não pode repetir-se, nem podem aqueles que adiaram uma situação grave para benefício eleitoral ficar eternamente sob o sigilo da sua imunidade parlamentar. Assim como onde há fumo há fogo, onde há culpa tem que haver culpados. E nenhum está propriamente escondido.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O poder da (des)informação

Mais do que quantidades inimagináveis de dinheiro ou amizades com elementos-chave da sociedade, o verdadeiro poder é a informação de que um dispõe e da quão privilegiada é. Não é por acaso que as nações dispõem de agências secretas onde a informação é a moeda de troca. Não é por acaso que as grandes empresas dispõem de departamentos rodeados pela obscuridade responsáveis pela obtenção de informação sobre a concorrência. Não é por acaso que existe o segredo de justiça. Não é por acaso que o jornalista se compromete com um conjunto de normas e procedimentos éticos, um código deontológico que rege a profissão, marcado pela objectividade, pela imparcialidade, pela confidencialidade e pela verdade e precisão. Deter informação é deter um recurso capaz de envergonhar as capacidades bélicas de um instrumento de guerra. Ora veja-se como Edward Snowden abalou os poderosos Estados Unidos da América com a divulgação de informação classificada, ou como antes dele Julian Assange colocou os Estados Unidos e os seus Aliados de joelhos com a criação do site WikiLeaks e com a peremptória divulgação de relatórios secretos sobre as guerras no Médio Oriente.     

Deter informação é uma responsabilidade considerável, uma responsabilidade que atinge proporções herculanas quando a informação se encontra embebida num forte carácter de exclusividade. Não está para todos, nem todos podem estar para ela. O jornalismo tem a importante função na sociedade de regular esta responsabilidade, procurando a verdade, apurando os factos e impondo a transparência. Mas a mais fundamental função do jornalismo, garantido primeiro o apuramento total de todos os factos, é a ponderação sobre os momentos certos, sobre o instante a partir do qual a informação pode ser divulgada, sob risco de se iniciar uma série de desinformações em catadupa em que a verdade é trocada pela opinião, a imparcialidade pelo sentença e a objectividade pela divagação. Nunca foi tão importante como hoje, nesta era das redes sociais que atravessamos em que tudo demora menos de um milésimo de segundo a se propagar irreversivelmente por todo o lado, ponderar a bondade da informação de que dispomos. O caso José Sócrates é um exemplo fresco nas nossas memórias de que como a ponderação falhou, de como a deontologia jornalística falhou, de como a deontologia judiciária falhou. Sem uma acusação formada e com o processo ainda numa fase de germinação, a opinião pública foi apresentada com informação ferida de objectividade que não pôde ter outro efeito que não fosse um julgamento de carácter imparcial. A ausência de ponderação por parte de todos os intervenientes redundou num precedente grave. Redundou também no reverso da moeda com a decisão de proibição da publicação de notícias relacionados com o caso José Sócrates por parte dos meios de comunicação do grupo Cofina, um ainda mais grave precedente com ramificações que não conseguimos antever.

O caso deveria ter servido novamente de lição sobre o efeito que a informação tem na opinião pública. A TVI não aprendeu. Ao divulgar no passado domingo uma notícia especuladora sobre a situação do Banif voltou a mostrar que o poder da informação é demasiado grande, às vezes até para aqueles que têm por responsabilidade e actividade regulá-la. O efeito foi o que se viu, que se vê ainda. Filas às portas dos balcões do Banif com clientes preocupados. Acções em mínimos nunca vistos. Esclarecimentos pouco claros por parte do Banco. Garantias do Primeiro-Ministro. Garantias de candidatos presidências. Mais notícias feridas de objectividade. A sombra do colapso do BES a pairar irremediavelmente. Embora reconhecendo que a informação divulgada não foi “totalmente precisa e esclarecedora”, a TVI alega que as primeiras informações avançadas em rodapé pela televisão foram posteriormente “cabalmente esclarecidas no jornal '25ª hora', emitido à meia-noite”. É preocupante que o canal remeta para um esclarecimento posterior uma notícia incendiária que passou em rodapé e que considere isso suficiente, mesmo admitindo que nesse entremeio tenha induzido a opinião pública a “conclusões erradas e precipitadas sobre os destinos daquela instituição financeira”. A impunidade não se ganha apenas de peito feito.


À venda e com capital injectado pelo Estado, o destino do Banif era imprevisível. Poderia ser o que a TVI anunciou, ou outro completamente diferente. Agora dificilmente terá outro que não o anunciado. O alarme provocado pela notícia da TVI alastrou-se como um vírus e uma instituição financeira que se encontrava em lenta convalescença não tem maneira de sobreviver a este novo assalto. O banco foi-lhe retirado de baixo dos pés. A confiança acabou. Os depósitos estão a desaparecer de hora para hora e a liquidez é já uma distante memória. No fim do dia, os contribuintes perderão mais um pouco e poderemos regressar ao caos financeiro, com tudo o que isso implica. A notícia da TVI desvalorizou mais o Banif do que um relatório anual de contas com avolumados prejuízos poderia ter feito. Inevitavelmente, há agora um véu de suspeição sobre actuação do canal televisivo. Quero acreditar que não há má-fé nesta actuação, mas só me faz temer ainda mais o poder da informação e da desinformação. Preocupa-me que a informação seja tratada com tanta leviandade. Preocupa-me que informação incompleta e limitada do panorama que apresenta seja exibida como cabal. Preocupa-me que erros como este possam vir a transformar a decisão judicial sobre o grupo Cofina em jurisprudência. A liberdade de informação foi conseguida a fogo e ferros. Não pode agora ser perdida porque não sabemos usá-la, porque não sabemos ponderar sobre a sua idoneidade.            


sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Como comer um chapéu em 53 dias

4 de Outubro de 2015. 20 horas. Aníbal instala-se no sofá da sua humilde residência. Liga a televisor. Espreita rapidamente o relógio. Está perto da hora de vazio da sua tarifa bi-horária. Ainda dá para pagar as contas, pensa satisfeito. O televisor ilumina-se com o rosto do vencedor das legislativas. Pedrito é projectado como Primeiro-Ministro. Num raro trejeito, do qual o seu marcado rosto já não parece capaz, Aníbal sorri. “Ganhou mesmo! O Pedrito ganhou!”, espanta-se Maria, instalando-se ao lado do seu esposo com duas fartas tigelas de canja. “Valha-nos Fátima! Maria, valha-nos Fátima!” Maria agarra com força no seu terço e benze-se. “Traz o vinho, Maria. Ainda há um resto no pacote. Traz o vinho Maria. Hoje merecemos.” O vinho que sobrava era pouco, mas foi bastante para tingir de vermelho a canja fresca. Entre sugadas ruidosas, Aníbal e Maria jantam calmamente enquanto acompanham atentamente o desenrolar da noite eleitoral. A noite esfria e Maria levanta-se para ir buscar uma mantinha. Regressa. Enquanto estica bem a mantinha para cobrir completamente as suas e as pernas do marido, Aníbal solta uma gutural gargalhada. “Ai Maria, que choro de tanto rir! Este comentador pensa que o Costa ainda poderá unir-se à esquerda para ser Primeiro-Ministro.” Maria dá uma risada fina de boca fechada. “Mais depressa como um chapéu!” “Não te apoquentes”, acalma Maria. “O Pedrito ganhou e amanhã estás de folga.”

Dois dias mais tarde, Aníbal recebe Pedrito na sua casa maior, perto dos pastéis de nata famosos na zona de que tanto gosta. Pedrito traz-lhe meia dúzia. “Bom rapaz, como sempre”, agradece-lhe. “Ainda estão quentinhos. Ai, que ainda estão bem quentinhos!” Aníbal come o primeiro pastel em duas velozes dentadas. “Senhor Presidente,” começa Pedrito, “os resultados eleitorais foram claros. A PàF ganhou e ganhou bem. Sempre acreditei e agora é verdade. A nossa estratégia funcionou!” “Parabéns! Grande vitória!”, elogia Aníbal entre dentadas ao segundo pastel. “Até o Paulinho esteve bem.” “Aprendeste a domá-lo”, reconhece, virando-se para o terceiro pastel. Pedrito muda de tom e parece preocupado. “Os comunas e os bloquistas estão a planear uma moção de censura, Senhor Presidente.” “Não ligues a esses gajos. São brincadeiras. Fala mas é com o Costa. Não se demitiu e pode estar a aprontar alguma. Dá-lhe qualquer coisa, não vá o diabo tecê-las e ele ir na cantiga dos outros dois.”

Três dias depois, à saída do seu banho da tarde e ainda de roupão desapertado, Aníbal recebe um telefonema agitado. É Pedrito. “Senhor Presidente, o gajo está a gozar connosco. Só fala do plafonamento e enrola nos outros temas. E ainda diz às câmaras que o encontro foi inconclusivo!” “O Costa?”, questiona Aníbal, cobrindo-se finalmente. “Sim! Até já anda a encontrar-se com os outros. Senhor Presidente, não é possível que ele consiga ser Primeiro-Ministro, pois não?” “Respira fundo, Pedrito. Bebe um copo de vinho. Ninguém te vai tirar de São Bento.” “Eles juntos têm mais deputados”, recorda Pedrito num tom ofegante. “Podem aprovar uma moção de censura e entro automaticamente em gestão.” Aníbal franze o sobrolho. Não lhe tinha ocorrido isto. “Não vai acontecer nada. Como o meu chapéu!”, tranquiliza. “Na segunda vou reunir com ele e tiro-lhe essa ideia maluca da cabeça.”

A conversa com Pedrito está atravessada na goela de Aníbal, que passa todo o fim-de-semana aborrecido. Maria prepara rissóis de carne e de camarão e ainda traz do mercado presunto fumado, mas nada serve para acalmar Aníbal. Será mesmo possível que Costa se atreva a unir à esquerda para fazer cair o futuro governo de Pedrito? Aníbal vê-se à beira de um beco constitucional. Não pode voltar a convocar eleições e se uma moção de censura passa e o governo de Pedrito caí, Aníbal não tem muitas alternativas. “Maria, traz-me rennie”, pede a certa altura de Domingo, no fim de uma missa que passou na televisão. Aníbal mal dorme nesta noite. Quando Costa chega a Belém no dia seguinte, Aníbal recebe-o com um aperto de mão gélido. “Nem traz uns pastelinhos”, pensa para com os seus botões. Costa fala das legislativas, da sua visão para o futuro do país e das grandes divergências entre o seu partido e a coligação liderada por Pedrito. Aníbal sorri sempre, mas não ouve nada. Não quer saber das ideias de Costa para nada. “Os resultados eleitorais foram claros”, interrompe por fim, num tom duro. “Só posso ter uma leitura dos votos dos portugueses. Indigitarei o doutor Pedro Passos Coelho, vencedor das eleições, como é tradição.” “Pense bem, Senhor Presidente. Não se precipite”, aconselha Costa à saída. Aníbal faz orelhas moucas. Acredita que a dureza das suas palavras demoverá qualquer insurreição de Costa. Todavia, no dia seguinte, Pedrito volta a fazer um telefonema apoquentado. “Mais uma reunião infrutífera, Senhor Presidente. Não avançámos rigorosamente nada. Ele não quer entrar no nosso jogo. E eu não vou entrar no dele. Não reunirei mais. Peço desculpa, Senhor Presidente. Fiz o que podia. Compreendo se não quiser indigitar-me.” “Não digas disparates, Pedrito! Vão chegar amanhã os resultados finais e depois vou reunir com cada um. Vou pôr água na fervura. Esta rebeldia da esquerda é sol de pouca dura.” Pedrito fica mais reconfortado com as palavras de Aníbal e termina o telefonema num tom optimista, prometendo que vai começar desde logo a desenhar o seu executivo. “Maria, vai buscar-me um chá de camomilha que ainda me dá mais um mal com esta história toda. Traz-me um queijinho também para ajudar o chá a descer.”

Uma semana depois, Aníbal chama todos os partidos políticos à sua casa maior. Conforme recebe cada líder político no seu espaço e os cumprimenta com um aperto de mão seco, Aníbal desvia ansiosamente o olhar para as suas mãos. “Nenhum trás um pastelinho”, nota sempre com desagrado. Vale-lhe o comiserado pastel de Pedrito e a chamuça do Paulinho, um acto de respeito com que não está a contar, mas que até o safa de grande parte da conversa com o parceiro da coligação. Os representantes da esquerda voltam a alertá-lo de que é um desperdício de tempo indigitar Pedrito e que a esquerda tem uma solução de governação estável e douradora. Aníbal odeia ser apanhado nas suas próprias palavras. Mal fica sozinho e livre de mais desconfortáveis reuniões, telefona a Pedrito. “Prepara-te. Amanhã vou tornar oficial e para a semana vens cá assinar os papéis.” “E o Costa?” “Ele não tem coragem. Amanhã deixo mais alguns avisos no meu discurso e deve bastar. Ainda sou Presidente!”

Aníbal comunica a indigitação de Pedrito ao país no dia seguinte. “Em 40 anos de democracia nunca os governos de Portugal dependeram do apoio de forças politicas anti-europeístas, isto é, de forças políticas que nos programas eleitorais em que se apresentaram ao povo português defendem a revogação do Tratado de Lisboa, do Tratado Orçamental, da união bancaria, do pacote de estabilidade e crescimento, assim como o desmantelamento da união económica e monetária, a saída de Portugal do euro, para além da dissolução da NATO, organização de que Portugal é membro fundador.” Está feito e estão todos avisados. Aníbal respira finalmente fundo. “Não vou comer nenhum chapéu.” “Maria, prepara a sopa. Poupa no azeite; temos que continuar a apertar as nossas continhas”, sorri com alívio.

Sete dias após a tomada de posse do novo governo, o programa para a governação de Pedrito é entregue na Assembleia e Costa reúne as suas hordas para aprovar a moção de censura. Aníbal está consumido com as notícias. Já nem liga o televisor (assim ainda poupa mais um bocadinho nas continhas do mês). O chumbo do governo de Pedrito é quase certo na semana seguinte. Aníbal nem quer pensar nisto. Faz-lhe doer a cabeça e fica com azia após as refeições, particularmente quando Maria lhe prepara um bacalhau com cebolada. Pedrito liga uma dúzia de vezes durante o fim-de-semana, sempre preocupado com a discussão do programa que vai acontecer logo na segunda-feira. Aníbal promete fazer o que puder para mantê-lo em São Bento, nem que só em gestão. De início, Pedrito parece receptivo à ideia, mas nas últimas chamadas já vai dizendo que não fará nada de jeito com poderes limitados. Provavelmente pela primeira vez, Aníbal apercebe-se que entrou a direito no beco constitucional que pensava ter evitado. Se Pedrito cai e não aceita ficar em gestão, Aníbal não tem outra solução que não seja indicar Costa. Estará completamente encostado à parede. Aníbal mal pode crer. O coração começa a palpitar. “Maria, traz-me um xanaxzinho e uma fatia de bacon só para picar.” Não é que ainda comeria o chapéu?

O governo de Pedrito cai. Aníbal sente-se a ferver. Costa já fala como se fosse o próximo Primeiro-Ministro, mas Aníbal não está para aí virado. Tinha que haver outra solução. Falaria com quem tivesse que falar para encontrar essa alternativa. Começa com os patrões, que reafirmaram o seu apoio a Pedrito (também trazem croquetezinhos) e que se mostram preocupados com o esvaziamento da concertação social e com o fantasma da tributação de lucros. Recebe os sindicatos no dia seguinte. Não lhe trazem nada para petiscar e ainda exigem que indigite Costa o mais rapidamente possível. Mais valia nem tê-los convocado, pensa com irritação. Aníbal não quer saber de urgências. Planeia demorar o tempo necessário para procurar uma alternativa. Mas tem que se afastar daquele antro de intrigas. Logo no início da semana seguinte mete-se num avião com Maria e viaja para a Ilha da Madeira. Sentado à beira da janela só pensa no bolo do caco, na poncha, na espetada regional e nos docinhos de maracujá. Naquele instante, a queda de Pedrito já não é um tema. Não é durante dois dias, dois dias que passa ao sol morno e à boa comidinha quente.    

Tudo o que é bom acaba rapidamente e num piscar de olhos Aníbal já está novamente de regresso à sua casa maior. Na sua senda por uma solução alternativa, chama sete banqueiros. São os homens fortes do dinheiro e vão ter certamente uma posição clara sobre o tema. Conta convencê-los que manter Pedrito em gestão não é um mal tão grande como se pinta em todos os meios de informação, mas os banqueiros surpreendem-no com uma inclinação, ainda que ténue, para a indigitação de Costa. Aníbal afunda-se na sua cadeira. No dia seguinte recebe outras sete personalidades, agora economistas. Estes é que são os homens fortes dos mapas macroeconómicos. Estes é que sabem perfeitamente que a manutenção de Pedrito em gestão é um mal menor. Munidos de chouriços e farinheiras, mostram-se bastante cépticos quanto às propostas de Costa. Aníbal esfrega as mãos de contente. Ainda há uma esperança. No último dia da semana volta a receber os líderes políticos. Aníbal volta a olhar ansiosamente para cada um, mas só o Paulinho traz uma chamuça debaixo do braço. Pela primeira vez, Pedrito não traz nada. “Ora bolas”, estranha. Estranha ainda mais o discurso dele, no qual se mostra resignado e se recusa a ficar em gestão. “Não vale a pena, Senhor Presidente. Não quero ser carne para canhão. Dê lugar ao Costa. Em poucos meses cai e vamos já preparando a campanha.” Aníbal coça a testa fervorosamente. “Como chegámos a isto?… O que vale é que ainda conseguiste desfazer-te das avionetas. Pode ser que agora sirvam melhor comida do que aquelas sandoxas secas que me deram no outro dia.” Pedrito abandona a casa maior cabisbaixo. Aníbal está efectivamente encostado à parede. Pedrito não quer ficar em gestão e um governo da iniciativa de Aníbal será rejeitado prontamente. Resta Costa e apenas Costa. “Traz-me qualquer coisa, Maria. O que houver. Não aguento este vazio na barriga!”

Durante o fim-de-semana, Aníbal começa a escrevinhar o discurso para a inevitável tomada de posse de Costa. É o discurso mais crispado que alguma vez escreveu. Aníbal não consegue controlar as suas palavras. Saem carregadas de dureza, mas Aníbal não altera uma vírgula. Não quer saber. Quando termina o discurso, escreve uma carta a Costa dividida em seis pontos. Não serve para nada, mas talvez ainda consiga arreliar a corja toda. Reúne com Costa na segunda-feira. Vem sorridente e altivo, de quem já está indigitado. Aníbal aperta os seus punhos e morde os seus lábios. No fim da fria conversa, entrega-lhe a carta e manda-o embora. Costa está confuso. Pensou que ia ser indigitado naquele momento. Apressa-se a dar resposta por escrito a tudo no próprio dia. Aníbal nem abre a carta. Rasga-a em vários pedaços e atira-os para o lixo. Tenta ligar a Pedrito, que não atende nenhuma das suas chamadas. Aníbal compreende. Não há mais nada a fazer. No dia seguinte, à hora de almoço, indica por fim Costa para Primeiro-Ministro. “Traz-me canja, Maria. Sem vinho”, lamenta, o apetito perdido.

Na tomada de posse de Costa, Aníbal não consegue esconder todo o seu desconforto, toda a sua ira. Profere o seu discurso tal como o tinha escrito, no tom mais ríspido que consegue ter. Aníbal pode estar fora da luta, mas não se vai calar no tempo que lhe resta. Não vai permitir que Costa tenha uma vida fácil. Na viagem para casa, lembra-se da sua promessa no dia 4 de Outubro. “Maria, hoje janto chapéu”, avisa de forma amargurada. O que vale é que foi espairecer dois dias à Madeira e que o que mais há por lá é chapéus de palha. Trouxe um, se calhar precavendo-se para este fim, e ia comer este mesmo, porquanto era mais fácil de mastigar e ainda tinha um valor nutricional considerável.  



domingo, 15 de novembro de 2015

Somos todos terroristas

A negra sexta-feira 13 de Paris voltou a evidenciar que somos todos terroristas. Após os ataques à liberdade de informação perpetuados ao Charlie Hebdo, Paris voltou a ser palco de um depravado atentado à humanidade. Bombistas-suicidas e ataques com metralhadoras numa série de atentados que prostraram o coração da liberdade, da igualdade da fraternidade à inclemência do Estado Islâmico. As primeiras reacções em França e na Europa são alarmantes. Se a gravidade do ataque ao jornal satírico em Janeiro já tinha provocado um sério revés na reaproximação da cultura ocidental à cultura do médio oriente, a selvajaria do dia 13 deverá marcar a delapidação definitiva, introduzindo uma nova era de desconfiança, de vigilância sem escrúpulos, de acusação barata e da redução e completa eliminação de humanitarismo. Acabou-se a robustez que fez da Europa pós-Segunda Guerra um antro da justiça, da tolerância e da moderação. O terrorismo está a vencer. Está a vergar a Europa a um caminho sinuoso. Mas a vitória que começou em Charlie Hebdo não se esgotou no 13 de Novembro. É preparada há anos para vários anos, patrocinada pela própria Europa e pela inércia da sua acção, reforçada pelo desmazelo dos valores-chave da construção europeia, por uma sociedade que se julgou transcendida e que marginalizou durante anos os que ali não tinham origem. O terrorismo na Europa pertence à própria Europa. Foi na Europa que nasceu e que se espraiou como um cancro severo alimentado por comportamentos nocivos. Foi da Europa que partiu para uma viagem de amadurecimento ao Médio Oriente, à Síria e ao Estado Islâmico, de onde regressou por fim, fortalecido e focalizado, porquanto nesse meio tempo se continuou a discriminar e a ostracizar minorias.      

Não pode surpreender que os terroristas de Paris sejam de nacionalidade francesa ou de outra origem europeia. Admiramo-nos e questionamos o ódio pela própria nação. Temos dificuldade em compreender. Temos dificuldade em aceitar que alguém menosprezado pela sua própria sociedade se revolte tão agressivamente contra ela, sem temor pela sua própria vida, mortalmente frio com o dedo no gatilho ou no botão da cintura de explosivos. Temos dificuldade em ver para além do fundamentalismo cego, do ódio profundo e da insaciável sede de vingança. Perante o horror da carnificina, continuamos a fazer juras de mais desprezo e de mais desconfiança. Instigamos o ódio porque é com ódio que replicamos. Estão milhares de refugiados à nossa porta e estamos tentados a recusar a sua entrada porque tememos que, algures no meio da multidão desesperada que nada tem para além das roupas vestidas, haja um terrorista cheio de oportunidade. E nesse pensamento justamente criamos as condições para um que terrorista surja de verdade; criamos as condições para que uma criança inocente, mal compreendendo o que está a acontecer à sua volta, mal compreendendo porque é que nenhum daqueles homens vestidos militarmente lhes veda a entrada e não concede abrigo nem alimento, se hostilize com o tempo; criamos as condições para que esta criança inocente entre eventualmente na Europa de forma clandestina e se instale num bairro de clandestinos imperado pela pobreza extrema, pela ausência de oportunidades e de compreensão que a sociedade escolhe ignorar; criamos as condições para que o ódio pela sociedade se instale e cresça venenosamente, tornando aquela que fora outrora uma criança inocente às portas da Europa num alvo fácil para predadores de discursos extremistas; criamos as condições para que esta outrora inocente criança, acreditando acerrimamente que exerce a sua justiça, se faça explodir um dia numa multidão de inocentes ou erga uma metralhadora contra tudo o que vem pela frente, porquanto aos seus olhos toldados tudo o que vem pela frente esteve sempre contra ela.        


O nosso medo é a nossa derrota. A nossa indiferença é o nosso terrorismo. Nada justifica Paris. Não há condescendência nem compreensão possíveis. Mas temos que ver para além do ódio. Assistimos à tragédia em directo e multiplicámos até à exaustão os votos de pesar pelas redes sociais, adoptando as suas homenagens oportunamente preparadas de antevéspera. Dispáramos acusações sobre crenças e grupos religiosos que misturamos num só saco. Não nos esforçamos por compreender, por ver para além do ódio. Hoje é notícia, amanhã é reminiscência na cronologia de uma rede social. É mais fácil assim. É mais fácil dirigir o ódio para um grupo demarcado do que procurar a raiz perpetradora. É mais fácil dirigir o ódio do que, promovendo primaveras árabes, ajudar a sua transição, do que prestar atenção aos horrendos atentados em regiões de conflito, do que evitar que corpos de crianças continuem a dar à costa da ilha de Lebos e que barcos carregados se virem sobre si mesmos em águas gélidas e imperdoáveis. É mais fácil dirigir o ódio, não ver para além dele, ser indiferente e assistir à distância. É mais fácil pelo menos enquanto essa distância não é encurtada pelo hediondo terrorismo de quem transformou o seu desprezo constante numa luta armada, da fé cega e da obediência incomensurável. A resposta da coligação internacional provocará eventualmente o fim do Daesh e do seu terrorismo, mas outro movimento de outros actos bárbaros renascerá das suas cinzas enquanto se continuar a alimentar a indiferença pelo velho continente, enquanto se continuar a endurecer o discurso sobre migrantes e refugiados que procuram apenas a oportunidade para viver, para ter uma rotina e poder colocar um pão sobre a mesa a cada dia. Entrámos numa nova era onde todos somos terroristas, uns de armas, outros de comportamento. Não podemos deixar que o terror de hoje do problema de ontem torne o problema de hoje no terror de amanhã. É preciso readoptar os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade que os terroristas de Paris quiseram ver prostrados, agora com determinação ainda mais vincada, por todos e para todos para que o ódio seja por fim erradicado.